Histórias no Feminino
Violoncelo

O violoncelo, instrumento de cordas que se crê ter surgido no século XVI, foi durante muitos séculos tido como pouco próprio para mulheres. Tocá-lo exigia um considerável esforço físico. A sua sonoridade grave não era conotada com a graça feminina e o seu volume implicava que a executante tivesse que contorcer o torso de uma forma julgada desgraciosa ao manejar o arco. O decoro ditava ainda que as poucas mulheres que o tocavam tivessem de fazê-lo desconfortavelmente, adotando uma posição diferente da dos homens, conhecida por “side-saddle”, em que ambas as pernas ficavam viradas para a esquerda, sendo a perna direita deitada num pequeno banco ou almofada ou cruzada sobre a perna esquerda.
A portuguesa Guilhermina Suggia (1885-1950), apelidada de “Paganina” em reconhecimento pelo seu virtuosismo, é considerada a primeira mulher a fazer carreira como violoncelista a solo. Para tocar, adota a posição masculina, celebrizando-se pelas suas interpretações galvanizantes que harmonizavam técnica e sensibilidade musical. Ainda hoje considerada uma das melhores executantes de todos os tempos, o seu reconhecimento internacional contribui decisivamente para desmitificar o demérito associado à prática do violoncelo por mulheres.
O violoncelo em destaque, pertencente à Unidade de Gestão de Instrumentos Musicais do MAH, foi, segundo etiqueta colada no interior da sua caixa de ressonância, fabricado, em 1784, em Cremona, Itália, à maneira de Stradivarius, notável fabricante de instrumentos de corda italiano do século XVIII.

Texto | Carla Ferreira / Ana Almeida