Histórias com Arte
Tentação de Santo António V

António Dacosta (1914-1990), pintor de origem terceirense, foi um dos responsáveis pela rutura da linguagem artística em Portugal no século XX. Na década de 40, foi um dos principais impulsionadores do surrealismo português, desenvolvendo a partir dos anos 80 uma pintura onde a nova figuração o torna um marco da arte contemporânea portuguesa no final do século XX.
Dacosta preserva uma forte identidade açoriana, especialmente evidente na abordagem do culto do Espírito Santo. Esta obra, de grandes dimensões, pertencente à Unidade de Gestão de Belas-Artes do Museu de Angra do Heroísmo, reflete também esse interesse pela religiosidade, tendo sido inspirada pelo retábulo de Grünewald, pintado entre 1512 e 1516, que Dacosta admirou numa visita ao mosteiro antonino de Issenheim, perto de Colmar, na Alsácia, em França. Criada em 1985, faz parte de uma série de cinco pinturas, subordinada ao tema das tentações de Santo António, apresentada em 2010 numa exposição realizada no MAH.
Segundo a hagiografia de Santo Antão ou António, este santo egípcio do século III d. C. doa todas as suas poses aos pobres, partindo numa viagem introspetiva pelo deserto, onde vive como um eremita numa gruta. É durante esse recolhimento que, tal como Jesus, é tentado pelo Diabo, que envia demónios para o atormentarem com todos os prazeres da vida terrena. Os tons escuros da tela remetem para a caverna, para um ambiente sem luz onde o mal prevalece e não há salvação, enquanto o vulto feminino personifica os desejos carnais.

Texto | Inês Machado