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Igreja de Nossa Senhora da Guia
do Convento de S. Francisco de Angra
Exposições permanentes

Os primeiros frades franciscanos chegados a Angra no início da segunda metade de quatrocentos, construíram um pequeno e modesto convento junto da capela de Nossa Senhora da Guia, erguida ainda no século XV pelo capitão Afonso Gonçalves de Antona Baldaia. Nesses terrenos que para esse fim lhes foram doados por aquele navegador, estava incluída também a referida capela, que passou a servir de igreja conventual.

Em 1499 quando a frota de Vasco da Gama regressa a Lisboa da primeira viagem marítima à Índia, a volta pelo largo para apanhar os ventos favoráveis e o estado mais gravoso da doença de Paulo da Gama, levam-no a aproximar-se dos Açores e a desembarcar na ilha Terceira. Angra, onde este acabou por falecer e foi enterrado (conforme afirma Damião Góis, numa cova rasa, sobre a qual se impôs uma pedra mármore com o seu nome; e que esta sepultura ficara no alpendre da sacristia da capela de Nossa Senhora da Guia), passa a ser a partir de agora a última escala das viagens transatlânticas com destino a Lisboa.

A imagem que J. H. Van Linschoten representa na sua famosa carta de 1592 mostra já um edifício remodelado e acrescentado no século XVI de acordo com o crescente número de religiosos que entretanto aquele convento terá recebido. Embora a carência de documentação não nos permita localizar no tempo com mais exactidão as datas dessas remodelações, a descoberta de alguns vestígios arqueológicos com características gótico-manuelinas, encontrados nos alicerces e noutras estruturas do actual edifício, durante as obras de conservação e restauro efectuadas depois do sismo de 1980, permitem-nos deduzir da natureza manuelina da anterior construção.

No século seguinte, entre os anos de 1663 e 1672, foram o convento e a igreja demolidos e reedificados segundo uma nova traça, sob a orientação do Padre Mestre Fr. Fernando da Conceição Naranjo, ministro provincial da Província de S. João Evangelista das ilhas dos Açores, com sede neste convento.

Edificada entre 1666 e 1672, esta igreja tem três naves: a central, que termina na capela-mor, a do lado do evangelho, que termina na porta de acesso à ante-sacristia, e a do lado da epístola, que termina na capela actualmente denominada da Ordem Terceira e que primitivamente foi da “mercearia”, instituída por André Gomes em 1522.

Na nave do lado do evangelho encontram-se quatro capelas, a saber: a do Sagrado Coração de Jesus (anteriormente denominada dos Anjos), a de S. Luiz de Gonzaga (antiga Capela das Almas, onde estava a imagem do Senhor Jesus Juiz dos Vivos e dos Mortos), a das Almas (antiga Capela de Nossa Senhora da Conceição, à qual pertencia a imagem de Cristo que ainda pode ser observada nesta capela) e a de Santo Antão (ou de Nossa Senhora da Conceição).

Na nave do lado da epístola encontram-se também quatro capelas, a saber: a Capela de Nossa Senhora dos Anjos, a de Nossa Senhora das Dores (antiga Capela de S. Tomaz de Vila Nova), a de Santo António e a de S. Pedro de Alcântara (antiga Capela de Nossa Senhora do Rosário).

Sobre a galilé e parte da nave central encontra-se o coro alto, cujas paredes estão revestidas, acima do cadeiral, por um rico apainelamento de azulejos da primeira metade do século XVIII, sendo a composição dos respectivos desenhos constituída por elementos da hagiografia franciscana. Do lado do evangelho a Profissão e a Estigmatização e do lado da epístola o Trânsito e a Visão de S. Elias; na parede do lado da epístola, as figuras de S. Francisco falando às aves e S. António pregando aos peixes.

Junto ao coro, encontra-se um órgão (em restauro) da autoria de António Xavier Machado Cerveira, um dos maiores organeiros portugueses dos finais do século XVIII. A sua estrutura inicial, típica do século XVIII conferia-lhe uma sonoridade barroca que incluía três foles exteriores à caixa, no entanto em meados do século XIX terá sido feita uma adaptação do instrumento a sonoridades mais românticas através da instalação de dois foles da caixa.

No ângulo noroeste do templo situa-se a sacristia onde, além de um tecto de caixotão de talha dourada e policromada (em restauro), se podem admirar um fontanário (datado de 1722, com trabalho de alto relevo de pedra, flanqueado por colunas salomónicas) e um magnífico arcaz de madeira do Brasil (em restauro), com puxadores de bronze dourado, cujo alto espaldar, da mesma madeira, é dividido por colunelos, tendo no centro um nicho dourado com um crucifixo em marfim de origem indo-portuguesa.

Esta igreja é um exemplo daquilo a que George Kubler chamou de estilo chão / plain style, estilo arquitectónico português marcado pela austeridade das formas. Este mesmo autor faz remontar a origem deste estilo a sugestões de arquitectos militares italianos, ainda que possam existir influências do Norte da Europa e da própria tradição arquitectónica portuguesa.

Bibliografia
KUBLER, George. A Arquitectura Portuguesa Chã. Entre as Especiarias e os Diamantes: 152-1706, Lisboa, Editorial Vega, 1988.

CORREIA, José Eduardo Horta. A Arquitectura: Maneirismo e "estilo chão" in "História da Arte em Portugal", Volume VII, Lisboa, Publicações Alfa, 1986.

BAPTISTA DE LIMA, Manuel. A Ilha Terceira e a Primeira Viagem, de Vasco da Gama à Índia, “Panorama”, nº 31 – IV Série, Setembro de 1969

Data de início: 21 de Junho
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