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Exposições permanentes
Objectos de Culto A abertura da exposição Do Mar e da Terra… uma história no Atlântico vem, uma vez mais, confirmar o lugar do Museu de Angra do Heroísmo numa rede de espaços em que as representações materiais e visuais, que se inspiram no passado, nas expressões artísticas e nas conquistas tecnológicas, se organizam para recriar narrativas e, de certa forma, fundamentar modos de estar e de ser colectivos, neste caso, de angrenses, terceirenses e açorianos.
Com efeito, é unânime a ideia de que os museus e as grandes exposições desempenham um importante papel, enquanto espaços de reflexão em torno dos paradoxos e dos vazios que atravessam as sociedades contemporâneas, quer no plano institucional da construção dos discursos identitários, quer nos planos criativos e até subversivos da produção artística, da inovação tecnológica e da dinâmica social.
Para o Museu de Angra do Heroísmo, fundado em 1949, pelos anseios e tímidas iniciativas da segunda geração de autonomistas, no âmbito da revisão administrativa levada a cabo em pleno Estado Novo, e com uma excepcional acção de salvaguarda patrimonial levada a cabo nos mais diversos domínios da herança cultural local, regional e até nacional, a abertura de uma exposição de longa duração com esta extensão leva-o a posicionar-se no quadro das dominantes históricas, sociais e culturais que, ao longo de cinco séculos, marcaram os acontecimentos e as relações no arquipélago dos Açores e que continuarão a marcar os seus destinos. Para os açorianos, tal como para muitos outros povos, o espaço – ou a geografia – e o tempo – ou a história – constituem os dois grandes eixos estruturantes dos pensamentos e dos discursos tecidos em torno da questão identitária – de quem somos e de quem queremos ser –, que estará sempre muito próxima da génese dos museus da Região, enquanto projectos colectivos. Desde sempre, foram forjadas identidades nas ilhas, ou seja, relações de pertença, destinos e crenças comuns e unificadoras. Uma identidade colectiva, que se vem a designar por açorianidade, foi certamente resultado de longos processos de descoberta e de exploração dos recursos materiais e dos saberes tecnológicos disponíveis; de reiteração das regras sociais e de respeito pelas crenças religiosas instituídas; de aceitação e de confronto face às conjunturas económicas e políticas ditadas pelo Estado e pelo Mundo; de vicissitudes e de sucessos individuais na interpretação e na recriação de tudo isto.
Parte desta história só fará sentido à luz de uma geografia, ou melhor, de uma localização no meio do Atlântico, e da importância que esta teve para que os Açores desempenhassem papéis determinantes em certos períodos da história mundial, fora dos quais não teria existido este projecto de povoamento, não teriam ocorrido os mesmos ciclos económicos, nem teria havido o mesmo envolvimento nas crises políticas nacionais.

Por outro lado ainda, a condição insular – o isolamento das ilhas, o torpor de um clima húmido e a ameaça sísmica – influíram e continuam a influir nas vivências, nos modos de estar e de pensar das gentes açorianas.

Localmente, as dinâmicas económicas, sociais e políticas acabam por fomentar o enraizamento de centralidades, entre as quais se destaca, desde os primeiros tempos, a centralidade de Angra ou da ilha Terceira, baseada em acontecimentos históricos vividos, sentidos e reinterpretados.

Não surpreende, pois, que a principal narrativa expositiva do Museu de Angra do Heroísmo parta do papel geoestratégico das ilhas e se centre no papel de Angra, não deixando de abranger outras dimensões fundamentais para a compreensão da totalidade histórica e cultural da ilha e do arquipélago. É por isso que, quando se trata de organizar, de interpretar e de apresentar as colecções deste Museu, de modo a representar a sua área de referência, trata- -se sempre dos planos locais da cidade de Angra e da ilha Terceira em articulação com os planos regionais do arquipélago, e supraregionais do país e do Mundo, ou seja, dos factos e das relações mais pertinentes da história de uns e de outros.

Aliás, esta exposição baseia-se num conceito de museu de síntese do tempo e do espaço, que tem vigorado desde a década de 80, com particular incidência no contexto regional europeu, e que se apoia numa visão multi-estruturada da realidade, composta de tempos e de espaço múltiplos, já que o espaço pode ser, igualmente, local, regional, nacional e global, e o tempo, simultaneamente, presente e passado, breve e longo, linear e circular.

Daí que, numa perspectiva de articulação desta vertente museológica com a aquela vertente histórico-cultural, se tenha ponderado a integração de cada objecto em função do seu valor histórico, civilizacional e estético, mas também da sua significação e representatividade para cada um daqueles níveis da realidade. De facto, uma exposição assenta sempre no objecto e na sua linguagem, ou seja, numa espécie de diálogo que é estabelecido pelos aspectos mate- riais e visuais – a forma, o volume, a textura, a cor, a gramática decorativa –, que condicionam profundamente a organização do espaço e, por consequência, as primeiras percepções, evocações e sugestões; mas pode, no entanto, focar-se no contexto ou na história que se quer contar através dos objectos. Esta exposição, tal como a maioria, acaba por ser desenvolvida entre um modelo orientado para o objecto e um modelo que privilegia o contexto em que este foi produzido.

Neste sentido, a exposição foi desenhada como se tratasse de um discurso baseado em objectos, sob a forma integrada de uma museografia da autoria da equipa Rui Pimentel e Luís Pascoal –, que visou naturalmente envolver o visitante na história que conta em quatro tempos e com recurso aos mais variados meios de comunicação. Esta opção narrativa não deverá, porém, anular a natureza polissémica própria dos objectos museológicos, que enriquece a exposição, dando a cada um a possibilidade de fazer a sua própria leitura, a sua própria visita, indo do itinerário de visita proposto até à deambulação, por puro deleite.

Já na primeira apresentação de 2000, quando abriu pela primeira vez ao público, na sequência das Obras de Restauro e Adaptação do Convento de S. Francisco a Museu, Do Mar e da Terra… uma história no Atlântico desenvolvia-se ao longo de quatro grandes períodos ou Momentos: I Momento – O Conhecimento das Ilhas; II Momento – Angra, Os Açores e o Mundo; III Momento – Da Capitania Geral ao Liberalismo; e IV Momento – A Formação do Contemporâneo.

A disposição do actual projecto museográfico diferencia-se, no entanto, substancialmente da inicial, na medida em que opera uma distinção clara entre dois níveis de abordagem: um primeiro que se apresenta nas salas e nas galerias principais, e que é o das peças originais ou autênticas e dos documentos de primeira importância e valor; e um segundo nível de pendor mais interpretativo, que se baseia na síntese cronológica dos principais acontecimentos da história regional e nacional e no filme que anima cada Momento, e que ocupa corredores e pequenos auditórios.

No I Momento, a exposição inicia-se com modelo de caravela armada quinhentista, como sugestão da viagem e de descoberta, detém- -se na conhecimento e na descoberta das ilhas através da cartografia e prossegue com o ambiente insular e o povoamento, nas suas vertentes materiais e espirituais. Parte-se aqui de uma representação do Mundo em que o real e o imaginário se misturam e entra-se num tempo e num espaço de domínio europeu em que as ilhas atlânticas são ocupadas – ilhas que não eram tais pera em elas homens poderem viver, nas palavras do degradado João Vaz, retidas no texto que Rute Gregório dedica ao Conhecimento das Ilhas. É nesta perspectiva de ocupação do espaço, que se aprofunda o tema da espiritualidade com um núcleo de Arte Sacra, em que se destaca quer a imaginária trazida pelos primeiros povoadores, que se distingue sobretudo pelo material de origem utilizado, quer a imaginária de produção local atribuída aos mestres da Sé de Angra, que testemunha o elevado desenvolvimento económico e cultural da época. A dimensão espiritual do povoamento encerra com uma visão, de certa forma atemporal, sobre as festas do Espírito Santo, sob a forma de registos fotográficos e fílmicos das suas vivências e sequências rituais.

Angra, espaço de projecção de dinâmicas sociais, económicas e políticas que dominam os Açores, nos séculos XVI, XVII e XVIII, transformando esta cidade num importante interposto comercial do Atlântico, ocupa o II Momento. Aqui, procurou-se, de algum modo, recriar uma representação de uma cidade em cujas ruas se concentrariam oficiais mecânicos num fervilhar de trabalho com sons e odores dos mais variados, para usar expressões de José Damião Rodrigues, ou ainda, de acordo com o mesmo autor, uma cidade em cujo ancoradouro se juntavam navios oriundos das Índias de Portugal e de Castela, do Brasil e de África, que abasteciam a ilha de produtos exóticos e permitiam às famílias da elite e às casas religiosas adquirir mobiliário em madeiras finas, estatuária, crucifixos e relicários indo-portugueses – os mesmos que agora se expõem aqui, lado a lado com aquele mobiliário de cuja exportação se fala e que, finalmente, se associa às magníficas caixas esgrafitadas tão bem representadas neste Momento. Por tudo isto, a Ilha Terceira foi cobiçada, resistiu e acabou sob o domínio de Castela, o que também se tornou parte integrante do seu património, do seu imaginário e da sua arquitectura: foi um sistema defensivo, mas também uma moeda única.

Ao longo do Momento que se segue, a criação da Capitania Geral é aprofundada como um dos períodos mais importantes da organização político-administrativa do arquipélago que, assente no poder absoluto do rei e num modelo centralizador, prolonga a centralidade política da Ilha Terceira face a uma realidade local que lhe é cada vez mais hostil. O que parece certo é que a fragilidade da administração portuguesa nas ilhas persistirá, independentemente das algumas marcas que tenha deixado nas mentalidades e nos hábitos, de acordo José G. Reis Leite.

É, pois, nesta perspectiva de preponderância do político-administrativo, que aexposição dá lugar à emergência da crise política de oitocentos, de transformação de ideários e de luta pela sucessão do poder, em que contra tudo e contra todos, a ilha vai desempenhar um papel de primeira linha no panorama nacional. A questão liberal vai, pelo menos em parte, preparar a entrada das ilhas açorianas na contemporaneidade, que estará bem patente nos estilos e gostos patenteados pela pintura, pela cerâmica e até pelo mobiliário e traje apresentados.

O IV Momento surge, por fim, com as novidades tecnológicas da viragem do século XIX, a fotografia que substitui o retrato a óleo, mas que mantém a pose, e o cinema que surpreende a todos. Chega- se então a um tempo já muito próximo de nós e cujas conjunturas dominantes parecem manter ainda alguma actualidade, são os problemas de uma sociedade rural e de uma economia de base agro-pastoril, as ligações difíceis ao exterior, a emigração, os conflitos mundiais, a importância geo-estratégica baseada na navegação marítima que se transfere para a aeronáutica, a emergência da questão identitária e de um regime político-administrativo autonómico. Estas constantes estruturais e estas mudanças ocorridas ao longo do século XX constituem assim o contexto em que se apresentam alguns testemunhos ou fragmentos de histórias, tais como os objectos resultantes da presença inglesa e americana e de certas tentativas de industrialização, a Cerâmica Terceirense e outros. Factos e objectos que foram e que são interpretados não só por intelectuais e elites regionais como modos específicos de pensar, de sentir e de estar, como por todos os outros que também se sentem interpelados por este espaço sócio-histórico específico, como parte integrante de um processo de formação do contemporâneo nos Açores, a que José M. Oliveira Mendes se refere como processo de desencravamento [de] uma sociedade tradicional e rural, [que] só acontece após o 25 de Abril de 1974 e a instituição da Região Autónoma dos Açores.

Do Mar e da Terra… uma história no Atlântico assume-se, pois, como um dos raros espaços em que a história e a herança cultural açorianas se materializam e se devolvem ao olhar, através daqueles objectos que evocam e que tornam mais real, ao mesmo, as memória de um passado e os caminhos de um futuro, como se se tratasse de um ponto de partida e de chegada para a descoberta e para a compreensão da cidade de Angra, da Ilha Terceira e do Arquipélago dos Açores.

Helena Ormonde Directora do Museu de Angra do Heroísmo

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